sábado, 12 de setembro de 2015

Blog da Mobilidade

Quero falar de mobilidade urbana em São Paulo, cidade/metrópole onde o tema é absolutamente relevante. É urgente tratar dele. Esse primeiro post é prospectivo: por onde ir, que assuntos abordar, por que meios postar, como organizar meu tempo para conseguir firmar o projeto de tratar do assunto.
Temos a realidade: faixas de ônibus, faixas de ciclistas, motocicletas, carros, metrô, trens, pedestres. Nenhum dos segmentos funciona bem. Como tornar esse emaranhado de interesses conflituosos um projeto interessante?

Tenho pensado em pequenos textos - crônicas - sobre todos os aspectos que envolvem a mobilidade urbana. Desde nosso exemplo mais próximo - a luta pela volta do azulzinho, o ônibus que ligava a Vila Gomes, no Butantã, zona Oeste, até o Jardim Míriam, na zona Sul. Tem as conversas com motoristas. Tem a historinha dos bairros - impressões, melhor dizendo, de cada lugar que posso visitar. Tem os papos com idosos, que posso bater. Com os ciclistas. Com os motoqueiros. Com metroviários. Com os usuários. Mas nada técnico; literário. Narração na primeira pessoa. Com entrevistas, vídeos, áudios.

Para início de conversa, preciso conhecer esse universo. Saber dos projetos, dos argumentos de todos os envolvidos, da legislação. E, sobretudo, saber se já não tem gente fazendo o que pretendo. Depois, à medida que for construindo o blog/site/redes sociais, buscar linhas de financiamento para o projeto. É uma mídia, sim.
Então, vamos lá.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Informática, a melhora que piora

A informática é o bicho. Adianta barbaridade o expediente, mas quando atrapalha, é pra valer. É o caso, nowadays. (A expressão veio, e como meus leitores são imaginários, permito-me). Estamos sem receber e-mail há três dias, decorrência de uma "melhora" no sistema. Quando ouço que o pessoal da informátiva vai "melhorar o sistema" tenho urticária. Nos quase nove anos de Famato, as melhoras só fizeram piorar. Antes, os computadores se comunicavam; hoje tenho que passar e-mail para o colega ao lado ou seguir um caminho que quase sempre se apresenta com problemas.
Quantas e quantas vezes já aconteceu de perdermos muito conteúdo nessas "melhoras", também como é o caso agora. Disseram que, provavelmente, os e-mails endereçados à redação nos últimos dias não serão entregues. Legal. Já perdemos edições inteiras da revista - que estavam arquivadas no computador e, descuido do diagramador, sem back up. Já perdemos para sempre o site da revista: em outra "melhora", desconfiguraram os mecanismos do site e nunca mais. Hoje, quase cinco anos depois, tivemos uma reunião para fazer o novo site da revista - com outro pessoal.
Não sei - realmente - se é incompetência ou se o negócio da informática é assim muito complicado mesmo. O que me parece é que existe uma paranóia na proteção de documentos que acaba gerando essas "melhoras" para pior. São garotos brincando de espionagem? Não sei, não. Mas que não podia acontecer, não podia. O que perdemos de material, nessas "melhoras", custa muito mais do que elas representaram de bom - coisa que, sinceramente, ainda não vi.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Pelo PT, vote Serra

O PT, tal qual o concebemos, acabou, ficou na poeira da História. Mas os ideais permanecem. Justiça social, redução drástica da distância entre ricos e pobres, fim da impunidade para crimes de colarinho branco, rigor extremo contra a corrupção, democracia participativa, liberdade, ética.
Hoje, quem tem condições de empunhar essas bandeiras? Nenhum partido, nenhum candidato. Fica a esperança, para Mato Grosso, de elegermos Pedro Taques, cujo trabalho à frente do Ministério Público Federal foi brilhante, ao Senado. Mas só. O resto é o resto. Restolho, melhor dizendo. E mesmo Taques, por enquanto, é uma promessa. Quantas não tivemos antes, e nos decepcionamos depois?
Pois estou defendendo a seguinte tese: para manter acesa a chama do PT, devemos eleger Serra. Primeiro, pra desalojar muita gente de segunda que embarcou no poder e agora se acha. Comete falcatruas, rouba, favorece, prevarica. Culpa do Lula? Médio. Culpa do PT? Total. Primeiro, porque não cuidou direito das nomeações, abriu espaço para picaretas, aprendizes de feiticeiros. Segundo, porque a cúpula se corrompeu, entregou-se aos prazeres do poder, demonstrou que faltava estofo para assumir o comando do país.
Depois, é preciso alternância no poder, e se for com gente da social-democracia, tanto melhor. PT e PSDB - irmãos siameses - vão querer mostrar quem pode mais. Veja o mote do Serra: "O Brasil pode mais". Essa é uma boa briga, que favorece o país, sem cair num conservadorismo nefasto. O PMDB, com a vitória de Dilma, vai ocupar espaços ainda maiores e tudo de ruim que acontece ao país se multiplicará. Já o DEM, principalmente se o PSDB vier com chapa pura, com Aécio, ficará ainda mais esquálido, ganhará no máximo migalhas para não morrer de inanição - embora seja esse o seu glorioso destino.
Daí minha campanha: para salvar o PT, petistas de corpo e alma, votem Serra. E vamos aproveitar os próximos oito anos para lavar roupa suja, expurgar os gatunos e avançar rumo a novas configurações sociais, ambientais, culturais.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Um dia lindo

Fazia tempo que não via um dia tão bonito. Acordei cedinho e pude ver o sol nascente batendo nos andares mais altos dos prédios que avisto do apartamento do 4o andar. O céu estava translúcido, as sombras ainda cobriam as casas térreas, o clima era de quase frio. Que Cuiabá tem dias bonitos, tem, mas hoje, no aniversário da cidade, tudo colaborou para que ficasse registrado como um dia belíssimo. O por do sol foi chocante. Uma barra vermelha se formou no horizonte, por detrás dos mesmos prédios que de manhã o sol nascente iluminava;com o avanço da noite, ficaram na contra-luz, silhuetas escuras com pontos de luz sob o céu quase negro.
Da minha janela vi o dia nascer e morrer.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Amigos

Tenho pensado muito nos amigos. Deve ser saudade. Tenho muito poucos, porém são grandes amigos. Para mim. Eu, para eles, devo ser um ingrato que não os procura, não dá notícias e quando os encontra, faz de conta que o tempo não passou e por isso não demonstra enorme satisfação. É que para mim não muda nada. Passa um ano, dois, cinco, o amigo permanece igual no meu pensamento. Devem pensar que eu não ligo a mínima para a vida deles.
Explico: tenho uma grande dificuldade de entrar em detalhes, tanto da minha vida quanto da alheia. Quando vejo um amigo, não fico especulando sobre os acontecimentos pessoais. Às vezes rola, mas raramente. Falamos de outras coisas, não de nós.
Mas sei que gosto muito dos meus amigos. São referências. Acompanho-os, de longe, no expediente dos jornais, revistas e programas de TV, nos releases de empresas, nos comentários de conhecidos comuns. Alguns nem sabem que são meus amigos, mas eu os considero. Outros, têm por mim um carinho tão grande que só muito tempo depois descubro que alguns caminhos que segui foram traçados por eles, sem alarde, sem aviso, sem cobrança.
Assim vou eu. Lembrando dos amigos, mas sem iniciativa de procurá-los. Às vezes penso que nosso encontro deve ser algo tramado por forças superiores, e é assim que muitas vezes acontece. É assim que vejo meus amigos: como uma trama do universo.
Hoje estava pensando em como estou afastado do bla bla bla da política, onde, em outros tempos, costumava estar; cheguei à conclusão que ali não encontrarei ninguém de quem um dia possa ser amigo, e o melhor é ficar longe mesmo.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Triste fim

De novo - o tempo passa. Mas vamos aos fatos. Com a desincompatibilização dos candidatos à presidência - vou me ater a eles - está armada uma guerra fratricida que fará muito mal ao Brasil. Explico: Serra e Dilma, PT e PSDB, são como irmãos brigados; falam mal um do outro mas se reconhecem. Disputam o poder, dão chute na canela, mas não avançam no pescoço.

Esta campanha que se inicia pode levar a gestos mais violentos. A divisão meio a meio do eleitorado, a esta altura, faz prever uma disputa acirradíssima, em que, lá pelas tantas, alguém irá ultrapassar o limite do razoável. Não propriamente o candidato, mas as tropas reunidas em torno de um e outro nome. Aí é que mora o perigo. Ultrapassado este limite, após a eleição, ganhe quem ganhar, restará um campo de batalha conflagrado em que coiotes e hienas - leia-se DEM e PMDB (et caterva) - disputarão palmo a palmo as carnes dilaceradas do regime democrático. Não para pensá-las, mas para abocanhar espaços de poder. Coiotes e hienas, covardes, não se enfrentam jamais - apenas dividem, na calada da noite, os nacos do butim. Triste fim de um projeto que, em 16 anos de governo democrático - em que pesem acusações de vendilhões da pátria para os tucanos e mensaleiros para os petistas - deu esperanças para o povo brasileiro.

sábado, 13 de março de 2010

Os caça-buracos

Estive viajando a trabalho. Percorri uma região ainda desconhecida para mim. Fui a Comodoro, no oeste de Mato Grosso, e de lá segui rumo leste, em direção a Campos de Julho. Parecíamos, eu e o fotógrafo, caçadores de tornados; estávamos em busca de tempestades para documentar o caos em que se transformam as estradas do interior neste período de colheita. Queríamos caminhões atolados, motoristas raivosos, essas coisas "que dão matéria". De tardezinha, no caminho para Campos de Julho, pensei que a sorte estava do nosso lado: nuvens muito escuras tomaram conta do horizonte, aproximando-se rapidamente, e os raios cortavam o céu de tempos em tempos. Bastou escurecer - nós ainda na estrada - para que o aguaceiro desabasse sobre nossas cabeças. Ainda bem que o asfalto é relativamente novo; era quase impossível enxergar alguma coisa, a não ser a faixa branca na lateral da pista.
Mal vimos a entrada de Campos de Julho, aliás muito mal sinalizada. Fomos a um posto de gasolina, conversamos com alguns caminhoneiros, jantamos, pegamos o pior hotel em que já me hospedei - disseram que era o melhor - e dormimos sonhando com belas imagens no dia seguinte. Antes, assisti ao primeiro grande comício de Dilma, durante o lançamento do II Plano Nacional de Cultura.
Acordei cedo, caminhei pela avenida deserta, sob uma cerração danada, mas pude ver a pista salpicada de grãos de soja, em toda sua extensão. Como se desperdiça. Também havia centenas de lesmas cruzando o asfalto. Ao lado, várias embalagens de veneno vazias, junto ao meio fio. Uma visão desanimadora.
Ainda no hotel Espelunca, perguntamos qual era a estrada com maior probabilidade de atoleiro. A opinião de todos foi a de que a Alto Juruena era terrível. Seguimos até ela e logo encontramos um caminhoneiro parado, arrumando alguma coisa. Pedimos informação. Ele estava esperando alguém vir na direção contrária para saber se dava para transitar. Seguimos adiante. Grandes valetas surgiram na pista. O solo estava seco, dava para passar. Por mais que tivesse chovido na noite anterior, não havia empossado água ali. Fomos em frente, depois de fotografar os buracos. Por todo lado, via-se a faina (palavrinha antiga, né?) de colhedeiras, tratores com plantadeiras e caminhões cortando a paisagem de leve declive. Bonito de ver, numa manhã ensolarada após a noite chuvosa. Aqui e ali, possíveis atoleiros, mas ninguém parado.
Decidimos seguir para Sapezal, onde almoçamos e ficamos comparando a organização da cidade em relação a Campos de Julho, feínha que só ela. Sapezal é maior, mais ajeitada e tem alguns prédios, como o Paço Municipal - a Prefeitura - de primeiro mundo. É o reino dos Maggi, dos Scheffer, dos potentados do agronegócio mato-grossense. O churrasco temperado com arisco, porém, deixou a desejar.
Decidimos caçar buracos na famigerada 364, no trecho ainda sem asfalto entre Campo Novo do Parecis e Diamantino. De Sapezal a Campo Novo, passamos pela recém inaugurada MT 235, que cruza a reserva indígena Paresí. Logo à entrada da reserva, o pedágio, cuidado por 3 índios. Vinte reais para carros, trinta para caminhões. Sem que fizéssemos qualquer alusão, o índio que veio cobrar desandou a falar que não eram ladrões, que faziam tudo direitinho. Por isso tinham troco, se precisasse. Numa das mãos, tinha um bolo de notas de 20.
Seguimos adiante pela bela rodovia, novinha em folha, por onde escoa a soja vinda da região de Campo Novo, onde a família Maggi planta trocentos mil hectares na fazenda Itamarati, arrendada de Olacyr de Moraes. O cerradinho ralo me fez lembrar um gaúcho que me acompanhou em outra viagem à reserva, há alguns anos: ele praticamente babava e dizia"Puxa, é muito fácil transformar isso em lavoura, é gradear e plantar". São 1,3 milhão de hectares de reserva, no mínimo 50% com topografia adequada à agricultura. Fui ali pela primeira vez há 23 anos, e vivi, por uma semana, como queria Rousseau.
Chegamos ao trecho sem asfalto da 364. Buraqueira, mas nada que já não tivesse visto na minha infância, indo para a fazenda em Dourados, MS. Gosto de dirigir nessas condições. O fotógrafo aproveitava para registrar a poeira levantada pelos caminhões que, dali, podem tanto ir em direção a Diamantino, levando a soja para a 163, como ir para Campo Novo. A da 163 vai sair ou por Santarem ou pelos portos do sul e sudeste do país; a de Campo Novo segue para Porto Velho, onde é embarcada e levada até Itacoatiara, no Amazonas, pelas barcaças da Hermasa, empresa dos Maggi.
Ao longo do trajeto, aqui e ali encontrávamos homens do Dnit. Mediam a rodovia. Logo adiante uma patrol deixava o chão um tapete. A estrada vem sendo asfaltada nos últimos anos e só faltam 80 km para ligar a 163, na altura do Posto Gil, à rodovia que sobe de Cuiabá a Campo Novo, cujo nome me escapa. Tanto na nossa subida até Comodoro como no trecho próximo a Diamantino, as estradas estão sendo recapeadas em grandes trechos. Buraco, mesmo, só nas estaduais e vicinais de terra.
Aos poucos, Mato Grosso vai superando as dificuldades tremendas de retirar suas safras cada vez maiores. O problema, pelo que se vê, está agora nas pontas: os caminhões estavam parados em Campos de Julho porque não havia balsas disponíveis em Porto Velho; em Santarém, onde desemboca a 163, o porto da Cargill não comporta grandes cargas; a Ferronorte estava sem vagões suficientes para atender à demanda do centro-sul do estado; e a hidrovia Paraguai-Paraná está às moscas desde que a Repsol de Hugo Chaves comprou a empresa Cinco Bacia e interrompeu o transporte de soja a partir de Cáceres.
Conclusão: o buraco é mais embaixo. Voltamos para casa mais cedo.